terça-feira, 8 de agosto de 2017

Astrais

Astrais


Da canção que adquiria um formato espectral, atravessando as paredes do quarto, vindo se hospedar nos meus ouvidos. Da voz aguda que, subitamente, despertou as memórias que queimavam na parte mais funda da mente.  Tentei guarda-las depressa, fugindo entre os cobertores que não me permitiram dormir. Em minha cabeça, a armadilha insuportável e recorrente de lembranças aterrorizantemente detalhadas que eu tentava estancar. O medo de contaminá-las com a mágoa vaporosa emitida pelo sangue fresco do trauma.

A pureza da qual sentia falta. A expressão confusa do rosto que vi pela primeira vez. E como aquela voz se arrastou pela minha cabeça todas as noites após a primeira. O som limpo do violão triste, e a suavidade do corpo que, às vezes, o carregava nas costas. O sorriso que machucava minhas bochechas, e a paz que se estendia sobre minha alma inquieta após tanto tempo só. As flores no seu cabelo. As fotos antigas que me assombravam por não terem sido deletadas. Meu pequeno príncipe, seu casaco azul. O disco de 1973.

Todas as noites fora da classe. As árvores, os bancos de concreto. A última prateleira, que eu não consigo mais visitar. Você me esperando no fim do corredor. O frio, seu cachecol. Você acordando cedo com o sol. A endorfina que me movia nas tardes de inverno. Seus lábios trêmulos, quase intocados, tão meus. A expressão nos rostos dos amigos. A ilusão do mundo mágico que se privava aos blocos daquela universidade.

Como se tudo tivesse mudado quando crescemos para fora daquele espaço. Como se crescer doesse muito. Como se o amor fosse exclusivamente planejado para me matar, todas as vezes. Pior dessa vez. As lembranças antigas transmutando lentamente. Eu sentia nossos corpos inertes no meu tapete. Suas lágrimas. Seus braços me envolvendo por completo enquanto eu chorava sua partida sobre minha cama. A atmosfera mágica, subjetiva, tão nossa. Como se meu quarto fosse um templo e nós, como santos, pudéssemos dormir juntos durante a tarde toda.

Talvez você nunca entenda. O que senti quando cruzei sua porta naquela tarde. Os horrores sobre os quais eu me permitia chorar no seu colo. Como meu coração estava disparado quando você me cobriu na sua cama. E sua respiração acariciava meu rosto quando você deitou ao meu lado, com o nariz quase colado no meu. A fortaleza segura que eu visualizava em torno de mim. Os desenhos na parede. A urgência do beijo regado pelas lágrimas que eu escorri. Você por toda a parte. Seu rosto entre minhas pernas, seus lábios nas minhas coxas, seus olhos pedindo permissão. Da dor que me abateu quando precisamos sair tão rápido do meu lugar preferido. A última vez. Eu só queria ter ficado.

Segurando sua mão como se você ainda fosse meu. E te vendo ir embora. Como se eu fosse junto. Como se aqui nada restasse, senão essas memórias.  A mandíbula dolorida após choros silenciosos. A sensação de que meu peito rasga lentamente, tão real que parece remediável.  Suas fotos, a camiseta. A visão de sua silhueta na janela. Os sonhos assustadores, a taquicardia. A falta que eu nunca sei se é recíproca.  A lua cheia. Minhas lágrimas. Seu fantasma. Minha morte. Meu amor. 

domingo, 18 de junho de 2017

Sob o Meu

Sob o Meu

Eu ainda sinto seu corpo tremer sob o meu. As lágrimas salgadas que eu bebia sem saber se eram suas, se eram minhas. Regando o tapete enquanto eu seguia com minha tentativa frustrada de enlaçar seus ombros, tão maiores que os meus, por completo. Desejava conseguir chorar com a força que você usava para fazê-lo. Mas não conseguia.

A casa vazia quando eu cheguei, depois de te levar embora daqui. O quarto escuro, cheio dos seus cabelos. Os cobertores nos quais deitei devagar só pra, tristemente, descobrir que cheiravam como você também. Suas lágrimas secando no meu travesseiro. As fotos do porta-retratos. A música do primeiro CD.

Eu traçava os caminhos que fizemos todas as vezes em que você veio me ver. As ruas pelas quais caminhamos quando te levei de volta pra casa pela última vez. Como segurei sua mão de leve, como se sua ida fosse uma piada que, logo, logo, iria terminar. As inúmeras idas até sua casa. O caminho que fazíamos conversando quando você me levava de volta. Os abraços de até logo. As casas bonitas depois da esquina. Seus cabelos pela janela do ônibus.

Você foi tão rápido. Me chamou pelo nome. Eu queria parar o tempo pra te ter mais um pouquinho. Seus braços cedendo pra me soltar antes de eu ver suas costas sumindo. Eu nem tive tempo de agradecer. Você ficou a tarde toda, e não foi o suficiente. A ponta dos seus dedos delineando meus lábios. Eu te ouvindo respirar. Suas mãos secando minhas lágrimas.

E eu não entendia o que havíamos feito. E eu te esperava voltar na semana que vem. Eu não entendia quando tínhamos perdido. Eu deitava sozinha na cama e existia muito espaço vago. Eu te desejava me consolando de novo. Mais um pouco. Seus cabelos claros através da luz da janela. Seu rosto entre as minhas pernas. Eu ainda sinto seu corpo tremer sob o meu. Eu ainda sinto seu corpo tremer sob o meu. Eu ainda sinto seu corpo tremer sob o meu. 

quinta-feira, 8 de junho de 2017

Meu Anjo, Meu Amor

Meu Anjo, Meu Amor

Ouvindo: Sad Boy, Rad Horror

Eu vou te guardar na minha torre. O mundo lá fora não penetra minhas cortinas brancas. Não faz frio na minha cama. É macio no meu tapete, se quiser cair.
Eu vou beber suas lágrimas e transformá-las em palavras lindas. Vou cantar no seu ouvido pra ver o canto da sua boca se curvar. Vou extinguir as roupas, te segurar com tanta força contra minha pele que você vai reclamar de calor. E eu não vou ligar. Nem soltar.

Porque eu te vi indo embora sem saber que era mentira. Como refém das minhas histórias às vezes reais, às vezes fictícias. E eu vi tudo em ti. Tu em tudo. Eu tive medo de não sentir sua barba machucando minha barriga enquanto você desce. E eu queria sentir esse machucado. Por muito tempo mais. Tudo era você. Eu era você.

Eu espero que você não tenha medo. Do meu medo do que vai embora. Eu não consigo controlar as reações químicas do meu cérebro, e às vezes elas explodem. Meu eu-consciente vai te proteger de mim. Dos demônios que te assombram. Do que você quiser.

Seus olhos entreabertos. O corpo descoberto. As calças xadrezes. E a gata no colo. Minha calma. Minha paz. Fortaleza de amor pelo mundo. Deixa eu me afogar em ti. Beber você pela boca, pela mente, pelo resto do corpo todo. Deixa eu admirar você. Suas costas. Seu nariz. Sua boca pequena, macia, redonda. Eu vou te morder de amor.

Os braços que eram seus, e agora são meus. O único lugar onde consigo dormir sem acordar. E, se acordar, ver você. Sentir sua respiração quente no meu pescoço. E as mãos quentes nas minhas coxas descobertas. Tudo tem cheiro de você. No seu travesseiro, nos cobertores. E eu misturo meu cheiro ao seu. Eu rego sua cama com minhas lágrimas, eu debruço minha dor em ti. E você me abraça. Você é só calma. A beira da lagoa. A arte dos muros.

Me deixa te levar pro outro lado do estado. Pra cima das dunas, das montanhas. Te mergulhar na água salgada. Sentir o sal pinicar nossa pele bronzeada de verão. Me deixa te beijar na orla, sentir seu corpo todo, te transbordar de prazer em mim. Me deixa te levar pra uma casinha de vidro no meio das árvores, das flores, das orquídeas. Plantar um jardim em ti com minha boca. E minhas palavras. E meu amor. Te causar arrepios com a língua. Em todos os lugares. Em todos os sentidos.

Eu vou te mostrar meu mundo lindo.  Criar nosso mundo de sol. Não vai existir inverno, nem chuva, nem pais. Vai ser as tardes no meu quarto. As noites no seu quarto. A gente vai sair pra passear num barco. Você vai me contar sua calma. A Cassie vai falar. Eu vou conseguir entrar na sua cabeça por uma portinha roxa com a chave que você me deu. E eu vou levar minha espada pra matar seus monstros. Trazer seus cadáveres pra fora. Escrever tudo que você pensou duma forma linda pra te ajudar a entender.

A gente vai crescer tanto que vai explodir esse universo. Brincar com os planetas como se eles fossem bolinhas de nada. Enrolar as pernas na lua. Descobrir a beleza de tudo. Morrer de amor.
Me deixa te matar de amor.
Me deixa morrer de amor.
Meu anjo.
Meu amor.



quarta-feira, 7 de junho de 2017

Être

Être

Me fantasiava de rainha da beleza, beirando o fim dos anos 50. Sentia o tapete felpudo nas partes descobertas do corpo. O ar do aquecedor permitia a ausência da cobertura, balançando meus cachos em câmera lenta. Sentia os cílios falsos pesarem, irritando meus olhos sensíveis. A respiração lenta, que ora absorvia a fumaça contornando o incenso, ora as rosas que baseavam meu perfume, brilhando em tons de roxo sobre o bidê.

Iluminado pela minúscula luz do aquecedor ligado, meu quarto se tornava laranja. O laranja refletia na porcelana do prato que apoiava meus anéis. Ele não anulava o brilho azulado cadavérico da madrugada, que adentrava a veneziana das janelas e era, por fim, absorvido pelas cortinas.

Era melancolicamente bela, a minha solidão. Meu choro atravessava a pele do meu rosto pálido num traço tingido por maquiagem escura, terminando próximo à minha orelha direita, quando repousava sobre a pérola que atravessava o lóbulo auricular.

Eu lembrava do torpor dos dias em que precisei ausentar-me de mim mesma enquanto sentia o gosto do batom vermelho, que parecia mais escuro sob a luminescência laranjada. A dor que os rompimentos me causavam, e a dor que sinto ao projetá-los antecipadamente. O medo da possível e quase próxima necessidade da criação de novos hábitos. O novo que quase sempre me assusta.

Sentia-me terrivelmente sozinha, naquele cenário fictício. Não havia ser capaz suprir plenamente o espaço. Os olhos continuavam transbordando, as lágrimas evaporavam depressa. Retornava ao medo exagerado de fins.

A subconsciência, projetando alternativas também antecipadas, me forçava a lembrar de palavras que tive medo de dizer quando o carro parou sobre a ponte interiorana naquele dia de chuva. O beijo que não ocorreu, porque meu rosto ficou quente demais, e eu preferi olhar pela janela que ladeava o banco do carona, fingindo acompanhar o rio que corria velozmente logo abaixo de nós. Das palavras que eu nunca disse. Dos sentimentos que eu nunca demonstrei. Da mão que entrelaçou a minha tarde demais.

Com os olhos embaçados de lágrimas, vislumbrei uma minúscula fissura entre a renda e o cetim da meia que contornava minha coxa esquerda, logo acima do joelho.
Meu corpo vai partir em dois. Dois. Da dualidade do meu amor. Da dualidade do meu querer estar. E nunca estar. Sempre no limbo do “poderia ser”.

Silence was a killer too.

sábado, 1 de abril de 2017

Conto: Gato

Gato

Eu escondi meu gato no bolso da jaqueta de couro, fechando-a até o pescoço. Sentia o filhote de menos de dez centímetros acomodar-se entre o forro e meu peito, ao lado esquerdo, bem sobre meu coração. A viseira de meu capacete estava trincada, e aquele milimétrico furo era como um jato de vento gelado perfurando meus olhos enquanto eu acelerava a caminho de casa numa manhã nublada de junho.

O animal resgatado, que agora precisava ficar com a cabeça para fora da jaqueta caso resolvesse se aninhar dentro dela, tornou-se um gato gordo, cinzento e sem nome que passeava pela varanda logo abaixo da janela do meu quarto. Ele sumiu na última sexta-feira.

É bizarro porque, após uma série de eventos desafortunados como a perda de uma chave, os trabalhos que esqueci que havia acumulado sobre a escrivaninha, os pedidos de minha mãe para que eu ficasse em casa naquela tarde, um pneu furado e um espelho rachado, eu passei a perna esquerda sobre o banco estofado de minha moto e saí do terreno. Vi o gato de relance, aprumado sobre o muro ao lado direito do portão.

No final na rua, fui empurrado por uma caminhonete vermelha e barulhenta que triturou minha perna, quebrando-a em dois lugares diferentes – no tornozelo e logo abaixo do joelho. Quando cheguei em casa algumas horas depois, engessado e sustentado pelos braços de meus pais, o gato não estava mais lá. Nem na varanda, nem na janela, nem na jaqueta. Em lugar nenhum.
— Você viu o gato? — perguntei à mãe antes de deitar.
— Deve estar por aí... — ela respondeu, dando de ombros — Boa noite, filho.
— Boa noite.

Recebi 30 dias de folga, sem nem pensar em tocar o pé no chão ou mover o gesso pesado. Já se foram 12, e o gato não apareceu. Tinha sonhos sobre ele com uma frequência assustadora. Quase sempre, sonhava que deslizava a perna boa pelo lençol, sentindo sua textura e encontrando o gato encolhido, dormindo ao pé da cama. Isso se repetia algumas vezes, até que eu deslizava a perna, mas não encontrava o gato — apenas um corpo gelado que me agarrava fortemente com a mão ossuda e escalava minha perna até chegar ao peito, sufocando-me em meu sono.

Acordei assustado e ofegante no meio da madrugada, respirando com uma força exagerada para sentir se meus pulmões funcionavam como antes — eles funcionavam. Sentei-me na cama e fechei os olhos numa tentativa de parar os flashes do pesadelo, que rodopiavam infinitamente pelo meu cérebro.

Quase dois minutos após, ouvi algo raspar suavemente o vidro da janela. O gato costumava fazer isso no inverno, quando queria entrar para se aquecer, mas agora estava quente e abafado. Achei estranho, mas inclinei-me para mais perto da cortina. O mesmo arranhar, agora quase uma batida inaudível.

Nutrido pela certeza absoluta de que o gato havia finalmente retornado e arranhava a janela para que eu a abrisse, levantei-me num pé só para fazê-lo. A imagem que já havia visto durante algumas madrugadas antes dessa se projetava em minha cabeça. Tinha certeza de que veria o gato ali, com as sobrancelhas franzidas como quem espera há muito tempo. Abri a janela.
Não havia nada.

Senti ambas as rachaduras em meus ossos enquanto um calafrio gelado subiu da sola dos meus pés até meu couro cabeludo pela coluna vertebral. Estagnei. O vento gelado que bateu em minhas costas certamente não vinha da janela, que estava posicionada logo à minha frente, mas causou arrepios que me fizeram estremecer violentamente. Tentei virar-me devagar, primeiro os pés, depois o tronco, por último a cabeça. De olhos fechados, todas as histórias fantasmagóricas que ouvi durante a vida vieram à minha memória.

Abro os olhos.

Ela está ali.

A mão ossuda de meus sonhos.

Pálida e sem vida como se tivesse acabado de sair debaixo da terra.

É a única coisa que vejo fora da sombra que se projeta dentro de meu guarda-roupas.

Congelado de pânico, sigo-a com os olhos até onde supostamente está a face da criatura.

Ela sai das sombras.

Branca.

Os ossos das maçãs do rosto, projetados para fora.

As olheiras profundas e escuras que por um momento ocultam os olhos gigantes da bizarra aparição.

Um sorriso malicioso de dentes podres e fétidos que se abre cada vez mais, até quase rasgar a pele que parece com papel de seda.

Os olhos amarelos sobrenaturais do gato.

Sorrindo, as órbitas oculares esbugalhadas, sobrevoa o piso lentamente.

Ela vem até mim.


segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

Ao Meu Outro Eudopassado

Ao Meu Outro Eudopassado

Das questões do meu eupassado, a quem respondo um ano após, com meu eudofuturo.

Caro Eudopassado,
temo que 2016 não tenha se saído como você esperava. A continuidade aguardada se tornou gradualmente um início completamente diferente, e eu confesso que ainda não descobri se isso foi bom ou catastrófico. Vejo ambos os lados, sempre em uma mutação constante e radical que possui picos e depressões.

Calma, isso já passou. Evaporou da sua vida há um tempo razoável e isso foi ótimo. A hora certa para uma saída (finalmente) completa e, até então, imutável. Toda a confusão, o choro e a ansiedade se tornaram o vazio, preenchido por sentimentos que arderam, ardem e ainda parecem impossíveis. Um pouco dele foi preenchido pela luz de uma relação semi pacífica que, bem de vez em quando, você consegue observar do alto.
Talvez, meio sem querer, você tenha alcançado a aquietação diante do que aflige e entendido que esta também é uma forma de iluminação.


Observo de longe que a amizade foi uma ponte necessária para atravessar um mar violento. Dada a travessia, a mente voltou ao seu estado introvertido natural. Isso não é ruim - mas também não tenho a autonomia que me levaria para dizer que se aproxima de algo bom.

O amor foi louco. Continua ardendo. O coração se preencheu de uma forma que eu não achei que existisse ou fosse possível, mesmo após tantas facas. Ele tem cabelos lindos e me apresentou um novo universo em vários sentidos. No sentimento de deixar livre. No contato físico. Nas portas abertas para dentro de seu mundo perfeito-musical-sereno-particular. Na liberdade de tornar externo todo e qualquer pensamento. Nas reflexões compartilhadas. No meu quarto nas tardes quentes. No quarto dele em dias frios. Nas mãos. Nos olhos. Na ponta dos dedos.


Descobri coisas estranhas sobre as palavras. Como se elas não me bastassem mais, mas ao mesmo tempo sempre estivessem presentes. Como se fossem minha bênção, e também minha maldição. Como se continuassem servindo - mas como complemento. Só pra suprir lacunas. Só pra não me perder no espaço tempo.
Ocupada demais vivendo presencialmente para escrevê-lo. Tornando-me a humanidade, ao invés de mera observadora de tal. Atravessando cortinas difíceis que provavelmente me beneficiarão num futuro próximo. O orgulho vem na observação da falsa calmaria passada, que forçava a manter estático.


Aprendi, de uma hora pra outra, a amar a mutação. Esses sentimentos confusos. Os choros, a raiva, a sensação de não fazer parte.
Pois tudo isso é movimento. Continuará sendo movimento. E eu amo o movimento. Eu amo a minha completa, confusa e maravilhosa condição humana.

O surrealismo da chuva e das conversas estranhas naquele cubículo escuro. E no banco de trás do carro, em um abraço de seis braços, onde amei 2016. E na miniatura de floresta, com a baunilha nos meus lábios, onde amarei 2017.


quarta-feira, 10 de agosto de 2016

Bifurcação

Bifurcação


Eu sempre me importarei. A vida é e será bonita. Nada se faz tão claro quanto as flores que brotam em Agosto. A natureza é um espelho gigante que reflete toda a humanidade, até eu e você.

Agora é quase primavera, e às vezes eu choro depois de ver seu rosto, porque seus olhos ainda faíscam pra mim. Eu sinto medo da promessa que fiz nas entrelinhas, de tomar conta de você. Morre uma parte do meu coração pensar na parte da minha alma que habita seu ser. Eu decorei seu jeito de caminhar e de estreitar os olhos. É difícil tornar-se estranho de quem conheceu todos os seus lados escuros. E mais difícil ainda pensar que não existe solução plausível, porque não há vínculos de amizade entre duas pessoas que nunca foram, de fato, amigas.

Sofro de aflição quando lembro do que você me dizia sobre seu medo da falta de um objetivo de vida. Eu desejo que você já o tenha encontrado. Eu desejo que ele seja mais do que você esperava. Eu quero que você encontre uma cidade grande e iluminada que acalente seu espírito e te faça voltar a crer na sua própria bondade. Porque nós dois sabemos do seu coração de verdade.

Eu sei que provavelmente sou uma pessoa diferente da que te conheceu há quase três anos, mas eu prometi que cuidaria da sua mente em chamas, lembra? E eu cumpro minhas promessas. Eu sorrio de longe. Eu quero e apoio qualquer coisa que te torne maior. Porque você já é imenso. Você se fez imenso. Você se fez seu próprio lobo.

Deixei que se fodessem o orgulho e a aparência. Eu não ligo mais pra nenhum deles, afinal. Eu desvio o rosto enquanto pende entre nós dois um barbante de átomos ou partículas ou seja lá o que foi que aconteceu aqui. Eu só queria que você soubesse que eu lembro. Que eu sou uma ótima atriz, mas eu lembro. Eu lembro de quando você me disse que se afastaria se isso me fizesse feliz, porque era desse tanto que você me gostava. Eu sinto muito por não ter compreendido o quão valioso era esse sentimento antes. Eu admiro sua forma complexa de amar as coisas.

Eu não tenho mais medo. Porque eu não preciso segurar sua mão pra dizer que te amo. Porque eu sei que você acredita. Porque se o pra sempre for mesmo um estado da mente, a gente chegou lá. A gente montou um pra sempre, nem ligo se funcionou ou não. Nem ligo se você não quer saber do que eu tenho pra dizer. Sempre vai existir a gente. Nós somos ótimos em escrever histórias. Por isso sempre vai existir aquela lembrança dos nossos cabelos iguais. Dos meus olhos vazios. Dos planos impossíveis. A gente escreveu um livro inteiro. Nada mal pra quem nunca conseguiu terminar uma história.

Eu só queria que você soubesse que eu lembro. Que você leva um pedaço da minha alma, e eu sinto, e eu lembro. Eu não queria morrer sufocada com essas palavras. Eu não queria que acabássemos como todo mundo, porque não somos parte do que é podre na humanidade. Eu lembro. Eu sinto muito. Eu agradeço que já dividimos uma estrada e espero que a sua nova te leve pra um lugar extraordinário.

A Lua continua a mesma, independente de qual estrada quem olha pro céu resolve seguir.